domingo, 26 de setembro de 2010

João II – “O Príncipe Perfeito”

Um destes dias ao passar pela Batalha espreitei o Mosteiro, coisa que já não fazia há uns tempos.
O Túmulo de João II chamou-me a atenção porque tem em relevo as Armas e brasão do rei que como se sabe esteve ligado ao nascimento das Caldas da Rainha, por influência da sua esposa D.Leonor e por isso mesmo a cidade ostenta no seu brasão os mesmos simbolos.

D. João II nasceu em Lisboa, a 3 de Março de 1455 e faleceu em Alvor, a 25 de Outubro de 1495; enterrado na sé de Silves e transladado em 1499 para o Mosteiro da Batalha.

Casou em Janeiro de 1471 com sua prima co irmã D. Leonor, que nasceu em Beja, a 2 de Maio de 1458, tendo morrido em Lisboa, a 17 de Novembro de 1525, sendo sepultada no Mosteiro da Madre de Deus, em Xabregas, filha do infante D. Fernando, duque de Viseu, e de sua mulher D. Beatriz. Deste consórcio nasceu:

«Foi el-rei D.João homem de corpo, mais grande que pequeno, mui bem feito e em todos os seus membros mui proporcionado; teve o rosto mais comprido que redondo e de barba em boa conveniência povoado. Teve os cabelos da cabeça castanhos e corredios e porém em idade de trinta e sete anos na cabeça e na barba era já mui cão, de que se mostrava receber grande contentamento pela muita autoridade que à sua dignidade real suas cãs acrescentavam; e os olhos de perfeita vista e às vezes mostrava nos brancos deles umas veias e mágoas de sangue, com que nas coisas de sanha, quando era dela tocado, lhe faziam aspecto mui temeroso. E porém nas coisas de honra, prazer e gasalhado, mui alegre e de mui real e excelente graça; o nariz teve um pouco comprido e derrubado. Era em tudo mui alvo, salvo no rosto, que era corado em boa maneira. E até idade de trinta anos foi mui enxuto das carnes e depois foi nelas mais revolto. Foi príncipe de maravilhoso engenho e subida agudeza e mui místico para todas as coisas; e a confiança grande que disso tinha muitas vezes lhe fazia confiar mais de seu saber e creu conselhos de outrem menos do que devia. Foi de mui viva e esperta memória e teve o juízo claro e profundo; e porém suas sentenças e falas que inventava e dizia tinham sempre na invenção mais de verdade, agudeza e autoridade que de doçura nem elegância nas palavras, cuja pronunciação foi vagarosa, entoada algum tanto pelos narizes, que lhe tirava alguma graça. Foi rei de mui alto, esforçado e sofrido coração, que lhe fazia suspirar por grandes e estranhas empresas, pelo qual, conquanto seu corpo pessoalmente em seus reinos andasse para as bem reger como fazia, porém seu espírito sempre andava fora deles, com desejo de os acrescentar. Foi príncipe mui justo e mui amigo de justiça e nas execuções dela mais rigoroso e severo que piedoso, porque, sem alguma excepção de pessoas de baixa e alta condições, foi dela mui inteiro executor, cuja vara e leis nunca tirou de sua própria seda, para assentar nela sua vontade nem apetites, porque as leis que a seus vassalos condenavam nunca quis que a si mesmo absolvessem.»

(Da Crónica de D.João II, de Rui de Pina)

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